02 agosto 2010

Opara

Francisco Solano de Lima – João Pessoa - PB

Algumas pessoas ainda não sabem que o meu nome verdadeiro é Opara, palavra da língua tupi que significa Rio do mar, e poderia ser entendido como caminho do mar. Nesse tempo eu era forte, caudaloso, ladeado de exuberante flora e fauna. No caudal das minhas águas viviam milhões de peixes de todas as cores, tipos e tamanhos. Havia ainda os anfíbios, répteis, e outros seres que chegavam pelo céu e pela terra, formando o micro e macro mundo fluvial. Assim compartilhava a minha vida e vivia feliz.

Os que vinham pelo céu eram lindas aves de variados tipos e tamanhos, de muitas plumagens e cores. Uma parte vivia sempre perto de mim, a outra me visitava alegremente, fazendo algazarra. Os da terra eram da família dos mamíferos, também bastante variados em tipo e tamanho, alguns ficavam muito tempo em minhas águas, e outros me visitavam todos os dias.

Entre os da terra havia um tipo bem diferente, inclusive porque podia falar. Eles gostavam de mim e em minhas águas nadavam, pescavam, navegavam em igaras, canoas que entravam nos igarapés e até no mar. Sabiam dar nomes para todas as coisas que viam. Antes deles, nada tinha nome, eu mesmo não tinha um nome. Fiquei feliz, porque logo me deram um bonito nome, Opara.

De tanto conviver com eles fui aprendendo a falar, mas demorei porque alguns tinham idiomas diferentes. Mas, muitos desses povos viviam perto de mim, porque eu sou um rio milenar de longo curso e chego até o mar. Com eles fiz grande parceria, citarei aqui alguns povos. Caetés, Tupinambás, Tabajaras, e outros, incluindo os Tapuias, nome geral dado aos povos que falavam idiomas diferentes do tronco lingüístico tupi.

Nesse tempo fui muito feliz e fiz uma parceria ideal, na qual eles cuidavam de mim e eu cuidava deles. Explico, eles protegiam todo o ambiente, as florestas nas quais moravam e faziam tudo sem nada estragar, além disto, respeitavam a minha flora e fauna. Por isto chovia muito e aumentava as minhas águas, e eu em troca, fornecia água e alimentos. Era simples assim.

Mas, chegou pelo mar gente do estrangeiro, um deles sem nem me conhecer mudou meu nome, contra a minha vontade, e sem mostrar criatividade copiou o nome do santo daquele dia, e logo me chamou Rio São Francisco. Mas, ainda tive sorte porque foi aquele de sobrenome Assis, gente boa pelo que fez quando vivo estava. Mas, na verdade ele nunca esteve por aqui.

Depois disto, tudo mudaria, a minha vida foi piorando, e com um século a desgraça estava grande. Dessa gente que chegou, alguns eram bons, outros ruins, gente perversa mesmo. Derrubavam as matas, escravizavam e matavam os meus amigos brasílicos. Os que escaparam foram morar longe, nas chapadas, uma delas, no planalto da Copaoba, onde ainda tem um lugar chamado Caetés. Fiquei sozinho, nem gosto de pensar nisto pra não morrer de tristeza.

Judiaram muito comigo, destruíram a flora e a fauna de minha bacia hidráulica. Degradaram tanto que me encheram de areia e barro assoreando o meu leito, despejaram esgoto, e fizeram a mesma coisa com os meus afluentes. Fiz enorme esforço para manter a vazão, e nesta tarefa, algumas barragens me ajudaram, uma delas, Sobradinho.

Eu sou mineiro, baiano, pernambucano, sergipano e alagoano, mas sempre sonhei mudar o meu destino geológico, para ser mais nordestino. Eis que arranjei um grande amigo, um parente dos antigos brasílicos que vai realizar o meu sonho. Ele nasceu em Caetés, perto de Garanhuns, no antigo planalto da Copaoba, e se chama Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente do Brasil.

Ele adivinhou o meu sonho, mandou fazer um projeto que vai me fortalecer, com dragagem, saneamento, reflorestamento, e outras coisas mais. Vou ficar mais forte, revitalizado, ganhar mata ciliar, e aumentar as minhas águas. Nesse projeto tem muita gente trabalhando, engenheiros, operários, soldados. Gente civil e militar, gente brava e trabalhadora, gente brasileira de capacete verde, amarelo, azul, branco, vermelho. Uma maravilha de se ver.

Através de dois canais vou interagir com outras bacias, Paraíba, Piranhas-Açú, Jaguaribe, Apodi, e assim em parceria fazer a minha viagem. Vou conhecer a Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, e outros lugares de Pernambuco. Transporei barreiras, contrafortes, vales, montanhas e linhas de cumeadas. Passarei em túneis, galerias, aquedutos, descansarei em lagos, subirei em elevatórias, descerei em usinas para gerar energia.

Energia para o sistema, os computadores, que vão monitorar o meu percurso. Assim, poderei ficar sem medo, despreocupado, vai mesmo ser uma viagem alucinante, como dizem na gíria, vou deitar e rolar. E o melhor de tudo, vou fazer milhões de amigos, doze milhões, de pernambucanos, paraibanos, cearenses e potiguaras. Vou ficar feliz, muito feliz.

Apesar de tudo, ando aflito porque o meu ilustre amigo vai deixar de ser Presidente do Brasil. Mas, ele me disse para ficar calmo, porque no que dependesse dele o novo presidente seria dona Dilma Vana Rousseff. Ela esteve me visitando, gostei muito dela, e aqui pra nós, foi o maior xodó, ela até me disse baixinho, não fique triste, você é o rio da minha vida! Emocionado, chorei uma cachoeira de lágrimas. Precisamos de votos para um final feliz, por isto, de montante a jusante, e com os meus afluentes, estou em campanha, Dilma, Dilma, Dilma !!

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Solano!
Li teu texto sobre o rio São Francisco, muito interessante como contas a realidade fazendo do rio um personagem, ficou muito "maneiro", viajando na nossa história e a maneira como descreve deixa o leitor pregado, e ainda pede um votinho.Valeu!

Homero disse...

Dentre os meus colegas de infância, Solano é o que tem o maior poder de processar no cérebro raciocínio lógico e correto. Solano formou-se em engenharia e ajudou com seu trabalho em lugares ermos, desabitados, distante da família, a desenvolver o nosso país. Não seria diferente se tivesse concluído o curso de direito, medicina, letras, história ou geografia.

Qualquer que fosse o ramo do conhecimento que ele escolhesse, saberia com esmero desempenhar suas funções.

Orgulho-me de tê-lo como amigo.

Abração, Solano.
.