10 dezembro 2008

Como é gostoso ler sobre a derrocada da Globo

Porque perdem as novelas brasileiras audiências?

por PAULA BRITO

( Atentem: o português é de Portugal - Diário de Notícias/Portugal 10.12.2008 )

Análise. Investigadora de uma universidade de São Paulo defende que as novelas brasileiras insistem numa fórmula de sucesso dos anos 70, 80 e 90, não se percebendo que os padrões de ética da sociedade mudaram. Os textos são fracos e os bons actores envelheceram, não sendo substituídos

A sociedade mudou e a TV paga e a Net cresceram

Longe parecem ir os tempos em que novelas Dancin' Days (1978-79), Roque Santeiro (1985-86) ou Selva de Pedra (1972) eram mais vistas do que jogos de futebol no Brasil. Por cá, o romance do escritor brasileiro Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, publicado em 1958, e passado, pela segunda vez, para a TV pela TV Globo, em 1975, com Sónia Braga no papel principal, foi um sucesso no Brasil e em Portugal, na monopolista RTP1.

Depois deste sucesso outros se seguiram. Porém, nos últimos dez anos, a cada novela lançada, sobretudo pela TV Globo, uma nova queda de audiências é anunciada, sobretudo no último ano. Esta constatação foi feita por Renata Pallottinni, professora de Dramaturgia, da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, num artigo publicado na última edição da revista Veja.

Mas porque as novelas já não arrebatam multidões? É a questão que esta professora tenta responder. Segundo ela, as novelas cometem vários erros básicos. "Há uma queda visível na qualidade do texto. Os autores não conseguem fazer algo atraente, como a velha novela que encantava o público." Apontando o caso da TV Record que inovou na linguagem com Os Mutantes - Caminhos do Coração, a investigadora confirma a sua tese com o facto desta espécie de série ter roubado audiência à Globo.

Nos anos 90, uma novela das oito de sucesso conseguia 60 pontos do Ibope e no início de 2000, passou a fazer 50 pontos, sendo hoje um mérito conseguir 40.

Renata Pallottinni destaca ainda o facto de os bons actores estarem a envelhecer e não existir investimento em substitutos à altura, sendo "um equívoco sério seleccionar actores jovens entre os mais bonitos. É preciso procurar talento".

Então a culpa é da Globo? Não necessariamente. O que acontece é que a emissora repete a fórmula que funcionou nos anos 70, 80 e 90, não se dando conta que a sociedade brasileira mudou. Além de uma sociedade com padrões de ética diferentes, com informação abundante e que circula veloz, as novelas debatem-se também com a concorrência da televisão paga e da Internet. No Brasil, o acesso à Internet a partir de casa, nos últimos dois anos, cresceu 78%, para os 24,3 milhões de pessoas. Já a TV paga totaliza 5,4 milhões de assinantes, traduzindo-se numa média de 20 milhões de espectadores. Resultado: mais televisores desligados. Por exemplo, no Rio de Janeiro, entre 2005 e 2008, foram desligados perto de 20% de televisores.

Lançada com a missão de travar a queda de audiências na faixa das 18.00, a novela de Miguel Falabella Negócio da China tem tido um desempenho pior (21 pontos) que o da sua antecessora Ciranda de Pedra, que em Portugal, na SIC, foi atirada para as 04.34 da madrugada. Também a Três Irmãs não vai além dos 30 pontos e na faixa das 21.00 o drama persiste. Depois de Duas Caras, com apenas 38,9 pontos, seguiu-se A Favorita com menos 1,3 pontos, daí ser conhecida como "A Rejeitada". Ainda assim, a Globo investe cada vez mais nas suas novelas, chegando cada episódio de uma série entre 180 a 200 episódios custar 156 mil euros.

Nenhum comentário: