02 novembro 2008

O homem novo e a utopia democrática O presidente e o governo

Mauro Santayana

Estranho às elites da República, nascido em Arpino e candidato ao Consulado, Cícero foi aconselhado por seu irmão a não se esquecer de que era homem novo na política romana. Deveria repetir a cada manhã, ao sair em busca de votos: "Sou um homem novo, aspiro ao Consulado, e se trata de Roma". É provável que o intelectual Barack Obama conheça o manual de Quinto Túlio, utilizado por Cícero, e nisso tenha meditado: é um homem novo, aspira à Presidência, e se trata dos Estados Unidos.

Muitos duvidam que os norte-americanos elejam um negro, esquecendo-se de que Obama é tão negro quanto branco, e que, em sua formação, prepondera a influência da mãe e dos avós, norte-americanos típicos. Distingue-o a circunstância de ser homem novo: não descende das oligarquias da Nova Inglaterra, nem pertence ao círculo dos grandes negócios e é moço. A juventude nem sempre é atributo positivo: os jovens, quando no poder, nem sempre são prudentes, e alguns chegam a ser cruéis, como é o caso dos líderes nazistas. Hitler tinha apenas 43 anos ao chegar ao governo, e quase todos os outros eram mais jovens do que ele.

Kennedy, mais jovem do que Obama, não era novo nos círculos tradicionais do poder. Embora tenha sido notável a sua posição na defesa interna dos direitos humanos, a política exterior, tanto em Cuba (na Baía dos Porcos) como no Vietnã, não deixou saudades. Coube-lhe, entre outros crimes, haver autorizado o uso da dioxina - o famoso agente laranja - contra a população vietnamita. Ainda hoje nascem crianças deformadas naquele país, algumas com os órgãos genitais fora do lugar, sem olhos, sem ouvidos, as mãos coladas aos ombros. Sua responsabilidade foi ainda maior, quando se sabe que Truman, ao saber de seus efeitos nos seres humanos, se negara a jogar o produto sobre as plantações de arroz do Japão, na 2ª Guerra Mundial, o que levaria o inimigo à capitulação pela fome. Preferiu empregar a bomba atômica contra Nagasaki e Hiroshima. Enfim, para os japoneses, esse humanismo de Truman não fez muita diferença.

Assim, os precedentes históricos desaconselham o entusiasmo. Espera-se que Obama não venha a ser amestrado pelos donos do dinheiro. Caso isso viesse a ocorrer, o mundo lamentaria a derrota de McCain. Embora considerado liberal entre os republicanos, não surpreenderia a ninguém. Em razão disso, talvez fosse menos eficiente na busca da recuperação da hegemonia norte-americana – o que seria bom para todos.

O que parece importante na vitória do democrata é a disposição da sociedade norte-americana em aceitar as mudanças que ele promete. Se realizadas, elas minguariam o poder dos oligarcas, defensores ferozes da hegemonia dos "brancos, anglo-saxões e protestantes" na condução da República e no comando de sua economia. Ele pretende golpear fundo o capital financeiro, acabar com os "paraísos fiscais" e propor leis que impeçam a sonegação fiscal das empresas, reduzam os tributos da classe média e promovam a inclusão daqueles que o neoliberalismo marginalizou.

O projeto de Obama – se ele está sendo sincero – romperá os limites impostos pelos plutocratas à democracia norte-americana. O sistema buscará, assim, combinar a liberdade com a igualdade social, a grande esperança da sociedade humana.

Os observadores atentos percebem descompasso entre o presidente e a equipe econômica. Lula procura defender com ênfase o papel do Estado, como suas declarações em Havana comprovam, enquanto Mantega e Meirelles buscam contemporizar.

O caso emblemático está na compra da Nossa Caixa, de São Paulo, e do BRB, do Distrito Federal, pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil. Os oposicionistas querem, na contramão do momento histórico, entregar as duas instituições ao sistema privado, que provocou todas as crises que conhecemos e levaram o Brasil à quebra. Tanto o governador de São Paulo quanto o do Distrito Federal já reivindicavam a venda das instituições para as instituições federais. A oposição argumenta que a compra das duas instituições favorece a "estatização" do sistema bancário, como se elas já não fossem estatais, desde a sua origem.

O ministro Mantega, sem embargo disso, já acenou com a possibilidade de excluir os bancos estatais da medida provisória que autoriza à União adquirir bancos em dificuldades, e isso o alinha com a oposição.


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