12 julho 2006

Saramago pessimista em relação ao uso da palavra e imagem


O escritor português e Prêmio Nobel da Literatura, José Saramago, afirmou estar pessimista em relação ao uso contemporâneo da palavra e da imagem.

«Vivemos no paraíso da palavra inútil e da imagem que não serve para nada», num mundo onde «a santa audiência é venerada em todos os altares», desabafou o escritor.

José Saramago falava no seminário «O Júbilo da Aprendizagem: Beatos e Bibliófilos na Pedagogia da Imagem», promovido ela Universidade Internacional Menéndez Pelayo, em Potes (Espanha).

Na primeira jornada do curso, dedicada ao «Legado da Imagem», o Prêmio Nobel opinou que «o Mundo está péssimo», ao ponto do ser humano não merecer a vida e ter fracassado como espécie.

Respondendo àqueles que sustentam que «estamos melhor do que antes», Saramago considera que eles confundem o ter com o ser e se esquecem que talvez tenha melhorado uma pequena minoria entre mais de seis milhões de pessoas.

O escritor português criticou o uso atual das imagens e declarou que agora se vive «numa espécie de culto à imagem como um valor em si mesmo» e a televisão faz uma utilização «totalmente gratuita» dessas imagens, atirando-as, uma atrás da outra, «à cara» de quem olha para o ecrã, sem outro resultado que o aturdimento.

Saramago chamou a atenção para a «insensibilidade» patente quando se transmite um programa sobre a vida dos chamados «famosos» e depois, as imagens de uma bomba no Iraque ou de uma epidemia de Sida em África. «Isto significa que tanta importância tem uma coisa como a outra», comentou o escritor, adiantando que, em nome das «santas audiências», se têm cometido muitos crimes contra a razão, contra a sensibilidade e contra o bom gosto, entre aplausos das próprias vítimas.

«O sistema transformou as vítimas em cúmplices e isso acontece todos os dias», sublinhou ele, considerando que os cidadãos deveriam exigir ser respeitados.No seu entender, também a palavra é alvo de manipulação, «especialmente no caso dos políticos», uma vez que já se sabe ou se suspeita que o que «tem a palavra na boca» está a dar-lhe um sentido contrário ao que ela tem.

Contudo, segundo Saramago, há uma zona onde a imagem e a palavra se transformam em aliados e essa é a área do conhecimento, que é também uma palavra «mas está a dizer algo».

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