29 abril 2006

‘‘Lula é um fenômeno’’



Entrevista de Carlos Alberto Parreira à IstoÉ

O técnico da Seleção fala de política, sexo e das mágicas de Ronaldinho Gaúcho às vésperas da convocação para a Copa

Carlos Alberto Parreira diz estar calmo. As quatro décadas de futebol, afirma, lhe ensinaram a controlar a ansiedade. Mas indagado a respeito dos dias que faltam para o primeiro jogo da Seleção Brasileira na Copa da Alemanha, diante da Croácia, ele responde em um milésimo de segundo, talvez menos: “51.” Parreira, silenciosamente, conta os dias. A partir de 15 de maio, com a convocação, ele se tornará o centro das atenções no país do futebol. Enquanto isso, divide seu tempo entre a família – o xodó é a netinha de pouco mais de um ano – e uma atividade que também o entusiasma: as palestras. Entre os dias 4 e 6 de maio ele participará do Congresso Brasileiro de Psicologia Esportiva, promovido pela Universidade São Judas, de São Paulo. O treinador falou com exclusividade a ISTOÉ. Acompanhe:

ISTOÉ – Quem dorme mais tranqüilo, o sr. ou o presidente Lula?

Carlos Alberto Parreira – Difícil para os dois, hein? O presidente é cobrado diariamente. Não dão colher de chá. É crítica aqui, é charge ali, é CPI. Mas no período da Copa, e já a partir de 15 de maio, com a convocação, serei mais cobrado que ele, tenho certeza. Vão esquecer um pouquinho o presidente.

ISTOÉ – Dá para dizer, então, que o futebol é o ópio do povo?

Parreira – Acho que o futebol ajuda muito, sim, no humor do País. Não temos guerra, não temos tragédias naturais nem atentados, então o futebol é que serve para unir o povo. Ele faz brotar o nacionalismo. Talvez apenas na campanha das Diretas-já tenhamos visto isso. Se ganharmos haverá euforia. Mas não resolve nada. Vencemos em 2002, mas a miséria continua a mesma, a fome continua a mesma, a violência não diminui. Nossos índices sociais ainda são ridículos e tristes. A Copa do Mundo não fará do Brasil um país melhor. Mas vai criar durante um mês, admito, um ambiente de euforia, e quero participar disso.

ISTOÉ – O sr. põe o presidente e o treinador da Seleção em patamar semelhante diante da opinião pública. Mesmo com a vitória em 1994, o sr. foi muito criticado, e agora tem nova chance. Lula merece outra chance também?

Parreira – O Lula é um fenômeno. Nessa crise toda pela qual o PT passou, ele manteve intocados os índices de popularidade. É um homem de valor e carisma impressionantes. O Lula ganhou em 2002 e o Brasil não afundou, ao contrário. A economia melhorou, o dólar se manteve, a inflação não aumenta. O governo dele tem sido bom. É difícil dar abrigo a 30 milhões de pessoas sem habitação, é difícil resolver os problemas de educação e saúde, mas esses problemas não nasceram com o Lula.

ISTOÉ – O sr. acompanha a crise do mensalão?

Parreira – No início acompanhei, mas já não dá mais. Chega um ponto em que a gente cansa. São tantos nomes, tantos envolvimentos, tanta coisa.

ISTOÉ – Se o presidente pedisse ao sr. para convocar um jogador, eleseria atendido?

Parreira – Não. Mas isso o presidente não fará nunca. Assim como ele não deveria me atender se eu sugerisse o nome de um ministro. Isso nunca aconteceu, não adianta forçar a história.

ISTOÉ – Mas o Médici, em 1970, impôs o nome do Dário...

Parreira – É mentira, não houve essa interferência.

ISTOÉ – Falemos de jogadores atuais. O quinteto com Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Adriano, Robinho e Kaká é um sonho impossível?

Parreira – Em futebol tudo é possível. O Parreira pode? Pode sim. Para quem não tem compromisso, para quem não tem responsabilidade ou não toma decisão tudo é possível. Dá para botar o Dida de ponta-de-lança, o Ronaldo no gol... Pergunto: é coerente voltar ao telefone de manivela? Dá para levar ao ar aviões de turboélice na era do jato? O progresso é inexorável. Com o futebol é assim também. Ele evoluiu e se transformou, embora exista algo que dentro de campo jamais mudará.

ISTOÉ – O que é?

Parreira – O equilíbrio tático. Uma equipe, para ganhar, tem que saber defender e atacar. Por isso uso sempre uma definição do Sepp Herberger, treinador da Alemanha durante 29 anos, campeão de 1954. Ele escreveu um conceito visionário: o futebol moderno se caracteriza por atacar e defender com a máxima eficiência. Podem me acusar de ser repetitivo, mas nunca li ou ouvi nada melhor. É atual até hoje. Não adianta fazer um time apenas com os talentosos, é preciso ter o carregador de piano.

ISTOÉ – Se o quinteto é impossível, o quarteto com Ronaldinho, Ronaldo, Kaká e Adriano pode funcionar, porque pressupõe a entrada de um carregador de piano atrás...

Parreira – Já é uma ousadia. É quase um 4-2-4, esquema de jogo que funcionou no final dos anos 1950 e início dos 1960. É muito pouca gente para brigar pela bola no meio de campo. Há evoluções que se cristalizam, e não adianta trabalharmos contra elas. Não é por acaso que o 4-4-2 se mantém desde 1966. É o posicionamento mais eficiente porque distribui os jogadores de modo adequado pelo gramado. Você acha que daria certo uma equipe com dez Pelés? Com dez Garrinchas?

ISTOÉ – Não, mas é bonito pensar que sim...

Parreira – Mas não daria tampouco com dez Dungas. A beleza do futebol é esse equilíbrio, ter quem defenda para permitir o ataque.

Um comentário:

Justo disse...

Oi Glória.É apenas para te comunicar que agora no meu blog, tem a seção "RECOMENDO" e que estou recomendando o teu blog para que você continue a lutar e perseverar.Boa sorte.
Bom fim de semana!
Ciao!!