Fernando Veríssimo, Globo, 20.04.2006
Em poucos minutos uma cabeça jovem vai se deteriorando, os cabelos embranquecem e caem, a pele fica enrugada e se solta do osso, e surge a caveira descarnada. Isso é um cena de horror. A mesma coisa acontece, mas em muitos anos em vez de em poucos minutos. Exatamente o mesmo processo, com uma única diferença: a sua duração. Isso se chama vida. O primeiro caso é excepcional e - seja ele obra do Demônio ou do departamento de efeitos especiais - aterrorizante. O segundo caso é natural. Acontece com todos nós, seu terror é diluído pelo tempo e atenuado pelo corriqueiro.
Um ato de violência escandaliza, uma rotina de violência banaliza. A rotina da miséria brasileira acaba se integrando no cotidiano, funde-se com a paisagem e desaparece no nosso relativismo moral. É lamentável, e lamentado em todos os discursos e programas do governo mas não é aterrorizante, pois quem pode viver em permanente estado de horror? Mas, no entanto, só o que diferencia a violência de uma invasão de terras da violência constante, rotineira, banalizada que a situação fundiária do país impõe aos sem-terras é o tempo. Uma é uma quebra de normalidade, a outra é a normalidade. As duas são reprováveis, mas a segunda é absolvida pela indiferença. Não tem o mesmo efeito espetacular, o mesmo horror concentrado.
Isso não é uma justificativa para atos de violência como alguns praticados pelos que lutam pela reforma agrária, mesmo porque a violência sempre acaba favorecendo a reação. É só um comentário sobre o escândalo seletivo de quem demoniza os sem-terras mas não se horroriza com a violencia diária, antiga, arraigada nos seus costumes e valores, praticada pela sociedade mais injusta do mundo. Ou só se horroriza com a retribuição.
Em poucos minutos uma cabeça jovem vai se deteriorando, os cabelos embranquecem e caem, a pele fica enrugada e se solta do osso, e surge a caveira descarnada. Isso é um cena de horror. A mesma coisa acontece, mas em muitos anos em vez de em poucos minutos. Exatamente o mesmo processo, com uma única diferença: a sua duração. Isso se chama vida. O primeiro caso é excepcional e - seja ele obra do Demônio ou do departamento de efeitos especiais - aterrorizante. O segundo caso é natural. Acontece com todos nós, seu terror é diluído pelo tempo e atenuado pelo corriqueiro.
Um ato de violência escandaliza, uma rotina de violência banaliza. A rotina da miséria brasileira acaba se integrando no cotidiano, funde-se com a paisagem e desaparece no nosso relativismo moral. É lamentável, e lamentado em todos os discursos e programas do governo mas não é aterrorizante, pois quem pode viver em permanente estado de horror? Mas, no entanto, só o que diferencia a violência de uma invasão de terras da violência constante, rotineira, banalizada que a situação fundiária do país impõe aos sem-terras é o tempo. Uma é uma quebra de normalidade, a outra é a normalidade. As duas são reprováveis, mas a segunda é absolvida pela indiferença. Não tem o mesmo efeito espetacular, o mesmo horror concentrado.
Isso não é uma justificativa para atos de violência como alguns praticados pelos que lutam pela reforma agrária, mesmo porque a violência sempre acaba favorecendo a reação. É só um comentário sobre o escândalo seletivo de quem demoniza os sem-terras mas não se horroriza com a violencia diária, antiga, arraigada nos seus costumes e valores, praticada pela sociedade mais injusta do mundo. Ou só se horroriza com a retribuição.
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