Resposta ao sr. Marcelo Coelho, da Folha
por Zé Dirceu
O jornalista Marcelo Coelho decidiu se somar aos articulistas que têm dispendido tempo e espaço com a entrevista dada por mim à revista “Piauí”. Publicou, terça-feira, no jornal “Folha de S.Paulo”, um texto seu intitulado “A morte em vida de José Dirceu”. Tive dúvidas em respondê-lo. E só o faço porque seus ataques pessoais a mim, com uma linguagem tão elegante quanto dissimulada, são também uma arma contra a esquerda e a biografia dos revolucionários.
O sr. Coelho, em seu texto, resgata da reportagem comentada alguns trechos. Relembra que, diante de reação hostil em um restaurante, permaneci sereno: “O ex-ministro não demonstrou surpresa, raiva, medo, constrangimento ou qualquer outra emoção. Ficou olhando impassível enquanto os berros continuavam”. Desse trecho da matéria assinada por Daniela Pinheiro na “Piauí”, extraiu suas próprias conclusões: “Dá para intuir que tanta impermeabilidade não se construiu num dia. Não era muito diferente a atitude de José Dirceu nos tempos de clandestinidade. Agora, como durante o regime militar, a despersonalização de José Dirceu funciona como um mecanismo de sobrevivência.”
Mas o jornalista não se conteve ao terreno da psicologia. Extravasou sua acidez também para a história das ideologias. “Está em curso a velha psicologia do militante bolchevique”, escreveu o Sr. Coelho. “Funcionário disciplinado do partido, cumpre-lhe assumir ou negar culpas, tanto faz, conforme os interesses da revolução. O modelo do militante é o cadáver embalsamado de Lénin na praça Vermelha: na impassibilidade está sua principal virtude”. E arremata: “Fazer-se de morto é, algumas vezes, o mais poderoso elixir da longa vida. José Dirceu continua assustador.”
Quando li, não sabia se ria diante da ignorância ou me indignava perante a má-fé. Posso ser acusado de qualquer coisa, jamais de impassível. Agora ou em qualquer outro momento de minha trajetória. Desde o dia seguinte à minha cassação reorganizei minha vida, passei a trabalhar na iniciativa privada para pagar minhas contas, viajei incessantemente pelo país para defender o PT e o governo Lula. Jamais hesitei em cumprir meu papel de pai, cidadão e militante de esquerda. Isso é ser “impassível” ou “fingir-se de morto”? O que pensa da vida esse renomado colunista? Que o oposto da passividade é bater-boca com um pobre coitado diariamente insuflado pelas barbaridades que circulam na mídia?
Os militantes de esquerda, a quem o Sr. Coelho tenta pejorativamente amalgamar como “bolcheviques”, são o sal da terra na história desse pais e mundo afora. Foram “impassíveis” os que resistiram contra o nazi-fascismo? Ou os combatentes internacionais que lutaram na Espanha contra o franquismo? Ou os jovens latino-americanos que deram sua vida e sua morte à luta contra as ditaduras que se alastraram pelo continente nos anos 60 e 70? Os exemplos são incontáveis sobre a generosidade, o idealismo, a capacidade de reação e o espírito de solidariedade desses a quem o jornalista busca lançar na cova da “impassibilidade”.
Eu faço parte dessa tradição com modéstia e orgulho. Dediquei toda a minha existência adulta, e lá se vão mais de quarenta anos, aos sonhos revolucionários, socialistas e democráticos. Assim o farei, da forma como for possível, até o final de meus dias. Não tenho, porém, o direito de expor em praça pública minha dor pessoal, pois o preço pago por incontáveis outros militantes foi muito superior ao meu. Não faço política a partir de meus eventuais sofrimentos e desencantos, ou de minhas naturais expectativas e esperanças, mas da idéia de servir, o melhor possível, a um projeto histórico que liberte os povos da submissão, da injustiça e da opressão.
Jamais verá o sr. Coelho me comportar como carpideira de minhas mortes anunciadas ou como um ressentido com a vida. Passei por poucas e boas nesses anos todos e meu couro é curtido. Sou um sobrevivente, é verdade. Mas porque aprendi, com meus pais e meus companheiros, a nunca, sequer na pior das situações, a me despersonalizar. Sou um apaixonado pela causa que abracei desde jovem, pelas lutas das quais participo e pelos sonhos que sempre sonhei. Por isso estou vivo e de cabeça erguida. Cometi muitos erros, como é o risco de todos os que estão no bom combate, mas essa caricatura desenhada pelo sr. Coelho definitivamente não me cabe.
Por fim, fico me perguntando porque o jornalista me considera assim “assustador”. Talvez seja apenas um recurso retórico para sua diatribe contra mim, é até provável. Mas, quem sabe, esse grand finale de seu texto expresse um medo subconsciente, que persiste nos corações e mentes das elites conservadoras desse país e seus escribas: a esquerda e seus militantes, enfrentando vento e maré, não se transformaram em apêndice domesticado e inofensivo da ordem oligárquica, apesar do brutal sistema de cerco e pressão. Sinto-me honradamente parte dessa gente “assustadora”, formada por homens e mulheres de luta, que não encontrarão sossego antes de transformar o Brasil em uma pátria justa, radicalmente democrática e soberana.
O sr. Coelho, em seu texto, resgata da reportagem comentada alguns trechos. Relembra que, diante de reação hostil em um restaurante, permaneci sereno: “O ex-ministro não demonstrou surpresa, raiva, medo, constrangimento ou qualquer outra emoção. Ficou olhando impassível enquanto os berros continuavam”. Desse trecho da matéria assinada por Daniela Pinheiro na “Piauí”, extraiu suas próprias conclusões: “Dá para intuir que tanta impermeabilidade não se construiu num dia. Não era muito diferente a atitude de José Dirceu nos tempos de clandestinidade. Agora, como durante o regime militar, a despersonalização de José Dirceu funciona como um mecanismo de sobrevivência.”
Mas o jornalista não se conteve ao terreno da psicologia. Extravasou sua acidez também para a história das ideologias. “Está em curso a velha psicologia do militante bolchevique”, escreveu o Sr. Coelho. “Funcionário disciplinado do partido, cumpre-lhe assumir ou negar culpas, tanto faz, conforme os interesses da revolução. O modelo do militante é o cadáver embalsamado de Lénin na praça Vermelha: na impassibilidade está sua principal virtude”. E arremata: “Fazer-se de morto é, algumas vezes, o mais poderoso elixir da longa vida. José Dirceu continua assustador.”
Quando li, não sabia se ria diante da ignorância ou me indignava perante a má-fé. Posso ser acusado de qualquer coisa, jamais de impassível. Agora ou em qualquer outro momento de minha trajetória. Desde o dia seguinte à minha cassação reorganizei minha vida, passei a trabalhar na iniciativa privada para pagar minhas contas, viajei incessantemente pelo país para defender o PT e o governo Lula. Jamais hesitei em cumprir meu papel de pai, cidadão e militante de esquerda. Isso é ser “impassível” ou “fingir-se de morto”? O que pensa da vida esse renomado colunista? Que o oposto da passividade é bater-boca com um pobre coitado diariamente insuflado pelas barbaridades que circulam na mídia?
Os militantes de esquerda, a quem o Sr. Coelho tenta pejorativamente amalgamar como “bolcheviques”, são o sal da terra na história desse pais e mundo afora. Foram “impassíveis” os que resistiram contra o nazi-fascismo? Ou os combatentes internacionais que lutaram na Espanha contra o franquismo? Ou os jovens latino-americanos que deram sua vida e sua morte à luta contra as ditaduras que se alastraram pelo continente nos anos 60 e 70? Os exemplos são incontáveis sobre a generosidade, o idealismo, a capacidade de reação e o espírito de solidariedade desses a quem o jornalista busca lançar na cova da “impassibilidade”.
Eu faço parte dessa tradição com modéstia e orgulho. Dediquei toda a minha existência adulta, e lá se vão mais de quarenta anos, aos sonhos revolucionários, socialistas e democráticos. Assim o farei, da forma como for possível, até o final de meus dias. Não tenho, porém, o direito de expor em praça pública minha dor pessoal, pois o preço pago por incontáveis outros militantes foi muito superior ao meu. Não faço política a partir de meus eventuais sofrimentos e desencantos, ou de minhas naturais expectativas e esperanças, mas da idéia de servir, o melhor possível, a um projeto histórico que liberte os povos da submissão, da injustiça e da opressão.
Jamais verá o sr. Coelho me comportar como carpideira de minhas mortes anunciadas ou como um ressentido com a vida. Passei por poucas e boas nesses anos todos e meu couro é curtido. Sou um sobrevivente, é verdade. Mas porque aprendi, com meus pais e meus companheiros, a nunca, sequer na pior das situações, a me despersonalizar. Sou um apaixonado pela causa que abracei desde jovem, pelas lutas das quais participo e pelos sonhos que sempre sonhei. Por isso estou vivo e de cabeça erguida. Cometi muitos erros, como é o risco de todos os que estão no bom combate, mas essa caricatura desenhada pelo sr. Coelho definitivamente não me cabe.
Por fim, fico me perguntando porque o jornalista me considera assim “assustador”. Talvez seja apenas um recurso retórico para sua diatribe contra mim, é até provável. Mas, quem sabe, esse grand finale de seu texto expresse um medo subconsciente, que persiste nos corações e mentes das elites conservadoras desse país e seus escribas: a esquerda e seus militantes, enfrentando vento e maré, não se transformaram em apêndice domesticado e inofensivo da ordem oligárquica, apesar do brutal sistema de cerco e pressão. Sinto-me honradamente parte dessa gente “assustadora”, formada por homens e mulheres de luta, que não encontrarão sossego antes de transformar o Brasil em uma pátria justa, radicalmente democrática e soberana.
Nenhum comentário:
Postar um comentário